O SÉQUITO



















Não há mais caminhos, metas ou anseios
O gosto doce da solidão azedou
Os ardentes versos queimaram-se com a febre
As forças impetuosas no peito cheio
se dissiparam e a confusa bruma aquietou
com as cinzas de sonhos que o tempo soprou
As mãos que ambicionavam posses estão vazias
As asas brancas cansaram de voar
Resta apenas o árduo caminhar
Os olhos que a tudo olhavam nos olhos
esconderam-se atrás dos óculos
querem apenas espiar o séquito dos dias.
QO/1974

Golfinhos Rotadores



Os golfinhos machos se revezam
Para enfrentar os barcos dos turistas
E, na folga, podem namorar e descansar
E vários fazem cópulas sucessivas com a fêmea
De forma que ninguém sabe quem é pai de quem
Logo todos os machos são responsáveis pelos filhotes
Como o prescrito na filosófica República de Platão.
O/2014

Direito de Resposta à Rilke



Deixa estar...
Tem males que vêm pra bem
E bem que vem pra piorar.
Mas eu posso responder à Rilke
As suas indagações a um jovem poeta:
-Se fui mesmo forçado a escrever? Sim
Por raízes de recantos profundos de minha alma
E construí minha vida de acordo com esta necessidade
Escrevendo como se fosse o primeiro homem
A contar o que vê, vive, ama e perde
Portanto tenho o direito de fazê-lo por destino
Com a minha solidão de criança no mundo.
E/2008

Viajar é preciso


Do alto do Castelo de São Jorge
Contemplei o rio Tejo, como Pessoa
Pairei por sobre os telhados de Lisboa.

H/2016