FÁBRICA$ DE MERDA LTDA.

Ninguém caga dinheiro quente
E mesmo que a gente cagasse
Nunca se cagaria o suficiente.
                                                             H/2018

BODAS DE PRATA

Foi com uma Superlua Azul sobre o mar nas areias de Capão
Que se festejou sob os festejos dos Navegantes e Iemanjá
Nossas Bodas de Prata Conjugais com amor e pés-no-chão.


                                                                  H/2018

Lendas Cósmicas

A lua está cheia
grávida de erupções solares
e ao dar a luz anseia
gerar estrelas espetaculares
Não há mais garoto que creia
que a lua é cheia de comer estrelas.

P/1996

Translação Vigiada

Escoa no choro da calha
Jorro de lágrimas vindas do céu
trazendo fria umidade
e levando pro fundo da terra
lembranças nossas pra quem já morreu

Emoldurados na parede
meus mortos observam meus movimentos
silenciosamente convictos
da universalidade da trajetória
não se contentam com a comunicação
feita pela chuva entre as duas dimensões
e aguardam, pacienciosos, o reencontro

Ilusão vã...
na casa escura e quieta
percorro o corredor infinitas vezes
transito no difícil trânsito da transição
e no lerdo movimento de translação
sob a vigilância atenta dos meus mortos.

S/1979

PORTEIRA ABERTA

Todo voo que baixa rasante
Por trás da estátua do laçador
Entrando no  poncho de Porto Alegre
Traz modismos de estranho  valor
E pousa ileso do laço do gaúcho
Que a pé, não laça mais nada
Vendo o pampa entregue aos javalis
Estático no pedestal de atração turística.

O/2012

O ENGAVETADOR DE POETAS

Poema é como um gaveteiro
Em que cada verso é uma gaveta
Onde engavetamos nossos sentimentos do mundo
Materializados em palavras sólidas
Portanto, como qualquer outro tipo de guardado
Poemas ficam sujeitos à depreciação do tempo

Reler nossos próprios poemas antigos
É como remexer nas gavetas do porão
Com traças, mofos e vãs naftalinas
Pois, no máximo, ficam fora de moda, fora de época
Mas sempre desvelam peças esquecidas
Que confinam vivos os nossos fantasmas inconscientes.

O poeta fica engavetado em seus poemas.

                                                                       E/2009