PESSOA ÍNTIMA


Que Pessoa é esta na minha cama
Que fala do amor e de Deus
E sobre a vida e a morte dos meus “eus”?
      Que Pessoa é esta na minha cama
      Que sopra por meus olhos uma voz
      Que é um açoite de palavras cortantes
      Que penetra na calma inquieta da solidão escura
      Do alto mar da minha alma lusitana?
             Que Pessoa é esta na minha cama
             Que canta na minha língua
             Coisas minhas que nem eu sabia
             Que as tinha em chamas no meu íntimo
             E, muito menos, que eram cantáveis
             E não apenas caladamente sonháveis?
                     Que Pessoa é esta na minha cama
                     Que finge tão completamente ser sua
                     Uma dor minha que deveras sente?
                                                           (E/2008)

O Jardim Suspenso da Ipiranga


Alguma coisa acontece no coração da natureza
Quando ela cruza a Ipiranga com a Av. João Pessoa
Por baixo o riacho fétido de esgoto bruto e pluvial
Por cima a ponte suspendendo em seus canteiros de concreto
As oito palmeiras suspensas da minha Babilônia
(Putz, agora só restam apenas sete palmeiras!)
Exibindo o fruto instável do desequilíbrio ecológico
Pra quem tiver olhos e coração para ver o milagre
Das garças brancas atravessando como nuvens solitárias
Por entre o jardim suspenso das palmeiras californianas
No cruzamento destas duas avenidas de Porto Alegre
Indiferentes à indiferença antiecológica dos portoalegrenses
Com suas descargas poluentes de esgoto, gasolina e óleo diesel.
                                                                      (I/2004)

Socialismo Reacionário





A bandidagem é que está fazendo
que está fazendo a revolução
o popular braço da luta armada
faz da favela pátio da mansão
A bandidagem rica é quem tá lucrando
privatizando em gangues políticas a nação.

(P/1996)

MINHA BRISA


Luíza, minha brisa
você é a mais linda flor
que brotou, germinou
que floriu, que vingou...
Que vingou a tristeza do mundo:
Que alegrou!
Luíza, minha brisa
você é esperança, certeza, ilusão
é fantasia, pureza e paixão
e mais todas as palavras com nexo
como o amor, eu anexo à sua canção
Luíza, minha brisa você
é ventania que o chão vai varrer
nada será mais igual
nada tão certo, nada tão normal
tudo pode acontecer
o sol luar ou a vida viver
Luíza, minha brisa é você.
                                         (K/1993)

A Forca


Eu quero uma corda forte
que resista aos meus 53 quilos
e que seja bem macia
pra não marcar o meu corpo...
                Eu quero um galho grosso
                perpendicular ao tronco e firme
                e entre flores, galhos e folhas
                oscilar meus pensamentos, a vida...
                              Eu quero voltar à pureza infantil
                              à liberdade sem compromissos
                              quero com a corda e o galho
                              construir um balanço singelo
                              para enforcar o adulto que incorporei.

(S/1977)

O NEGRO GATO FÉLIX


Chegou como um negrinho ranhento de rua
Acuado na grade do jardim da entrada do prédio
Talvez  achando que não havia mais remédio
Pra sina de abandono de quem é gato preto

Ao ver de vez suas sete vidas ameaçadas
Com suas grandes orelhas pontudas oriçadas
E seus arregalados olhos amarelos assustados
Parecia não estar entendo direito o seu destino:
- Em que corpo e em que mundo foi nascer?

Qual nada, foi acolhido de imediato no peito
Início do cerimonial grupal pra um nome receber
E, já como Félix, se apropriou do pequeno território
No apartamento de uma família do terceiro andar
Com janelas pra mirar de longe a rua de onde veio
Vista agora, com seus perigos,  de um mirante seguro.

Porém gato também não quer só casa e comida
Quer dormir, diversão, fazer arte, carinho e sexo
Nem que, pra isso,  tenha que voar pela janela...
Mas como gato não voa, só enxerga invisíveis voadores
Foi  preciso castrar-lhe as  excitadas asas suicidas
E tornar o Félix um sereno meditante monge budista.
Contudo, seguiu sem resistir à tentação da carne crua
Pela qual Félix era yogui: ficava de pé em duas patas
E seguiu sem abrir mão do carinhoso jogo de sedução
Com sua virgem gata Pitchuca, aos amassos e lambeção.

Dizer que só faltava falar, é preconceituoso
Pois que de fato o negro Félix falava tudo
Só não com a voz em falsete da  dublagem
Com que traduzíamos seus significantes miados
Como  ventrículos oralizando os seus pedidos.

Depois da fase de subir pelos armários de parede
E de fazer de bola a então “tartaruguinha” Rafaela
O Negro Gato Félix foi envelhecendo sobre o sofá
Nos observando no entra e sai de todos os dias
Como que criticando a insana correria humana
Até, idoso e doente,  buscar reclusão debaixo da cama
Pra regurgitar a vida com os seus bigodes brancos
E ir morrer, quem diria gato de rua, numa clínica chic
Nos ensinando a elaborar o luto por um ser da família
E a conviver com a  sua ausência em silenciosas lembranças.

(M/2012)

A Sustentável Leveza do Ser


Viver a vida curtidamente
sem pressa de querer e desejar
mais do que pode realizar
o braço e o bolso
e a perna alcançar

                    Curtir a vida vividamente
                    De modo que a perna e o braço
                    e o bolso possam realizar

                                  Viver a vida curtida na mente
                                  sem depender do bolso para andar
                                  Viver a vida na pernada vivamente
                                  Tal que o braço possa com leveza sustentar.

(E/2008)