JUVENTUDES EXTRAVIADAS
















A pacata solidão juvenil do meu filho
Eu sofria com ele, por ele e mais do que ele
Nela revivia a solidão da minha juventude
Sem namoradas, sem beijos e sem sexo
E sei que esta carência prolongada
Provoca áridos bloqueios afetivos no peito
Por não ter sido regado pelo sereno do amor

Do solitário peito de emoções enclausuradas
Não saem as palavras e gestos espontâneos
Que possam semear conquistas amorosas
Passivos, torcemos pelas forças do destino
Para que haja uma conspiração cósmica
Que nos realize o encontro com a bem amada
Como diz Neruda: “Que solidão errante até tua companhia!”
Aquela que fará fluir nossa afetividade represada.
PV/2012


Quarta-feira de cinzas

Assumindo sua fantasia de velho gagá
No bloco de rua bebeu todas e dançou
As mesmas marchinhas que seu avô cantou.

16/fev/2015

Brejo

Estive com o pé no barro

Quase que me atolei no além

Se a corda da minha vida

Não é tão forte e comprida

Fico no brejo das almas também.


                                                                                    E/2008

Sapato Folgado

Hoje eu sinto que a alma
(O espírito que vive dentro de mim)
Está mais confortável
Se sente menos comprimida
Parece habitar uma casa mais espaçosa
Não só pelo aumento de volume corpóreo
Está como que num sapato que foi apertado
Mas que com o tempo deu de si e ficou folgado
Se moldando corpo e alma, mente e etéreo.

                                                                                  I/2005

A Mulher do Poeta


Estás com a cabeça nas nuvens?

Aterrissa, sacode as estrelas

Deste pano de prato e vem

Secar as montanhas de louças

Que lavei na cachoeira da pia!

                                                  PV/2012

O ENGAVETADOR DE POETAS

Poema é como um gaveteiro
Em que cada verso é uma gaveta
Onde engavetamos nossos sentimentos do mundo
Materializados em palavras sólidas
Portanto, como qualquer outro tipo de guardado
Ficam sujeitos à depreciação do tempo

Reler nossos próprios poemas antigos
É como remexer nas gavetas do sótão
Com traças, mofos e vãs naftalinas
Pois só ficam fora de moda e de época
Mas sempre desvelam peças esquecidas
Que confinam vivos os nossos fantasmas inconscientes.
O poeta fica engavetado em seus poemas.

                                                                       E/2009

Ruiva Beijoqueira



É  quando digo
que o beijo que beija ela
não é o mesmo que beijas
que beijo eu...
É por que sei que no beijo
do beijar dela
tem o beijo desejado
pelo beijo meu...
É por que eu sei
que quando o beijo dela
é no meu beijo
me sinto todo beijado
em cada beijo seu.

P/1997