Haicai Politicamente Xucro

A Política está abaixo do cu do cachorro
E nunca esteve acima das guampas do touro
No máximo, na altura das bolas do porco.

H/2015

A Bolha da Paixão

A bolha da paixão
transmite toda a leveza
envolvendo com névoa de magia
todos os  atos, gestos e fatos
A bolha da paixão
de película insustentavelmente frágil
resiste às rajadas quentes da realidade,
aos limites impostos de tempo e espaço
e à clandestinidade dos prazeres proibidos
                        Fora da bolha da paixão
                        somos meros humanos, descendentes dos répteis
                        somos dinossauros em infinita evolução do magma
                        somos predadores de reprodução sexuada
                        somos uma massa gravitacional no nada
Mas a bolha da paixão
como a vida, sabidamente não é perene
e tem o amor, como a vida tem a morte
a questionar suas virtudes e belezas,
até implodir com a bolha da paixão
na vã ilusão de transformá-la, necessariamente
na imaginária cápsula do amor serenamente eterno.

                                              K/1993

AS ORÍGENS

Quantas saudades
Que me separam
Dos campos verdes
Do meu rincão
Mas no meu peito
A lua cheia
Ainda alumia
Meu coração
Tem nos meus versos
Ainda o embalo
Da prenda linda
A sapatear...
A minha andança
Mantém o galope
Do pingo velho
A cavalgar...
E nas minhas noites
Relembro causos
De valentia e assombrações
E nos meus sonhos
O clima é o mesmo
Dos descampados
E das trovações.

G/1975

COTIDIANO III
















O dia some como a  noite
como o sono, como um grito
como a fome.
O dia passa como o avião
o cão e o ladrão
como a ilusão.
O dia é breve como a guerra
como a liberdade e o lazer
como o prazer.
O dia é vazio como a terra
como a natureza, como o escritório
como a vida.

FE/1975

Delação Premiada de Lobo Lavajato

A galinha dos ovos de ouro foi pega em flagrante
Desviando ovos para eleger os donos do galinheiro
Com a grana das raposas que corrompem o país inteiro.

Haicai/2015

GARGANTA PROFUNDA

A lua minguava suspensa
Como uma fruta brilhante
Mordida por dentes de diamante
No céu da boca estrelada da noite.

                                                                                                        M/2013

JUVENTUDES EXTRAVIADAS
















A pacata solidão juvenil do meu filho
Eu sofria com ele, por ele e mais do que ele
Nela revivia a solidão da minha juventude
Sem namoradas, sem beijos e sem sexo
E sei que esta carência prolongada
Provoca áridos bloqueios afetivos no peito
Por não ter sido regado pelo sereno do amor

Do solitário peito de emoções enclausuradas
Não saem as palavras e gestos espontâneos
Que possam semear conquistas amorosas
Passivos, torcemos pelas forças do destino
Para que haja uma conspiração cósmica
Que nos realize o encontro com a bem amada
Como diz Neruda: “Que solidão errante até tua companhia!”
Aquela que fará fluir nossa afetividade represada.
PV/2012