RASANTE


Em revoadas na névoa me lanço
Quebro asas na rigidez dos anos
No escuro traço claros de noite morta
como um vaga-lume que substitui a lua
       Na minha janela anjos vêm pousar
       Trocamos experiências e esperanças
       Pedras soltas rolam, como é bom rolar
       Poucos sabem, um anjo foi quem me disse
      Mas sou como os anjos, nuvem cimentada
      Apenas posso voar!...
           No quadro emoldurado pela minha janela
           ela passa levantando pó em seu corcel
           esvoaçando a cabeleira oxigenada
           e sorrindo vaidosa de seus pivôs...
           E eu que assumi todos os compromissos
           ao ver passar a dourada borboleta
           sinto vontade de pular todas as janelas
           e com paixão rolar com ela
           num voo desvairado numa noite de verão.
                               FE/1978

Velho não se enxerga (velho)


A velhice tem miopia pra discernir
Os desejos ridículos dos viáveis
De tudo o que ainda queremos usufruir.
                         H/2015

DAS PROVOCAÇÕES


A reação provocada por uma ação
É impulsiva e mais intensa quando surta
Que a ação que provoca a reação:
É cutucar a onça com vara curta!
                                                      O/2012

INOCÊNCIA LÓGICA PRESUMIDA


Quero deixar provado
Que mesmo a prova ideal
Que pretende provar tudo
Nunca prova nada

Quero deixar provado
Que não há prova
Que prove alguma coisa
Com aprovação geral

Como não há prova
De que há provas
Logo há prova
De que não há provas

Resulto, pois, inocente
Da autoria destes versos
Pois nada prova a presumida
Fonte em mim de sua nascente.

                                                E/2009

Poeteiro


Não é que eu seja um convencido
Mas relendo meu último livro de poemas
Entrei para o rol dos meus poetas preferidos.
                                                                                   I/2005

Freeway


A página está virada
não tens mais nada  o que explicar
podes seguir na tua estrada
e outros adiante atropelar
podes seguir no rumo do nada
que eu saltei fora
e no desvio vou me afastar
podes seguir na tua autoestrada
que nos atalhos
pelo amor vou me salvar.
                                             P/1996